• 03 de Agosto de de 2026
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Emoção, coragem e muita luta.. De Vila Bozzeto à Lajeado: da infância humilde ao próprio negócio!

Emoção, coragem e muita luta.. De Vila Bozzeto à Lajeado: da infância humilde ao próprio negócio!
Emoção, coragem e muita luta..
De Vila Bozzeto à Lajeado: da infância humilde ao próprio negócio!
Natural de Barros Cassal, Graziela Severo dos Santos transformou as dificuldades da infância em motivação para construir uma nova história. Hoje, aos 38 anos, é empresária, ministra cursos na área da beleza e segue determinada a realizar a maior promessa que fez ainda criança: comprar uma terra para presentear os pais na Vila Bozzeto.
Algumas promessas nascem da esperança. Outras são feitas em meio à dor. A de Graziela Severo dos Santos surgiu quando ela tinha apenas nove anos e deixava Barros Cassal ao lado da família.
Enquanto via a pequena casa onde cresceu desaparecer pela janela de uma caminhonete Pampa, olhou para o céu e fez um juramento silencioso: trabalharia muito para que seus futuros filhos nunca passassem pelas dificuldades que viveu e, um dia, devolveria a dignidade aos pais. Quase três décadas depois, essa promessa continua sendo o maior objetivo de sua vida.
Morando em Lajeado há 27 anos, Graziela é casada com Alisson dos Santos Xavier, mãe de Valentina, de 15 anos, Sofhia, de 9, e do pequeno Elís, de 3 anos. Proprietária de um salão de beleza que se tornou referência na cidade, também forma novas profissionais por meio de cursos. Mas antes de conquistar estabilidade, enfrentou uma infância marcada pela pobreza e pelo trabalho desde muito cedo.
Filha de Nicolau Severo dos Santos, conhecido como "Niquinho", e de Fátima Terezinha Gonçalves dos Santos, Graziela cresceu na comunidade da Vila Bozzeto, onde a família vivia da agricultura. Apesar das dificuldades, ela guarda lembranças felizes daquele tempo. Recorda as longas caminhadas até a escola, os irmãos sempre reunidos, o carinho do avô e das tias e a alegria de assistir um pouco de televisão na casa de uma tia que já tinha energia elétrica, privilégio que sua família ainda não possuía. Durante o dia, estudava e ajudava o pai na lavoura. "Mesmo pequenos, tínhamos que ajudar", relembra.
Entre as recordações mais especiais estão os momentos em que o pai saía para tocar em bailes ou participar de programas de rádio e competições de trova. Em casa, havia apenas um rádio de pilha, ligado somente nesses dias. A família se reunia ao redor do fogão a lenha para ouvir a voz de Nicolau, que fazia questão de mandar abraços para os filhos. Quando voltava para casa trazendo algumas bananas ou um troféu conquistado nas trovas, a alegria era completa. "Para nós, banana era um luxo", conta.
Com o passar dos anos, a situação financeira tornou-se insustentável e a família precisou deixar Barros Cassal em busca de uma vida melhor em Lajeado. Graziela nunca esqueceu aquele dia. "O pai chegou em casa e disse apenas: 'Arrumem as coisas, vamos embora'." Toda a mudança coube em uma caminhonete Pampa, onde os cinco irmãos viajaram escondidos entre as roupas. A cena mais marcante, porém, foi deixar o cachorro da família para trás. "Lembro dele correndo atrás da caminhonete tentando subir. Nunca consegui esquecer aquela imagem. Foi naquele momento que prometi que mudaria a história da minha família".
A adaptação em Lajeado também não foi fácil. A família enfrentou despejos constantes por falta de dinheiro para pagar aluguel, e Graziela começou a trabalhar aos 12 anos, fazendo faxinas, cuidando de crianças e atendendo clientes como manicure em domicílio, enquanto os irmãos distribuíam panfletos. "Não importava como. O importante era trabalhar para mudar de vida".
Dos pais, levou para sempre dois ensinamentos: a honestidade e a coragem de nunca aceitar ser diminuída por causa da pobreza.
Durante muitos anos, conviveu com dores intensas sem saber a causa. Em 2021 recebeu o diagnóstico de fibromialgia, doença que acredita ter se manifestado ainda na adolescência, consequência do sofrimento vivido durante a infância e juventude. A notícia mudou sua vida, mas não seus objetivos. Ao ouvir da médica que não havia cura e que precisaria aprender a conviver com a doença, decidiu procurar uma profissão que lhe trouxesse prazer. Lembrou da época em que fazia unhas e sobrancelhas e, ao lado do marido, investiu todas as economias em cursos para abrir o próprio salão. "Costumo dizer que o salão nasceu da dor", afirma.
No início, conquistar clientes foi o maior desafio. Com dedicação, conquistou seu espaço e hoje possui agenda cheia, ministra cursos e ajuda outras mulheres a ingressarem na profissão. "Minhas clientes são minha terapia e meu remédio". A filha mais velha, Valentina, trabalha ao seu lado como lash designer, e duas sobrinhas também fazem parte da equipe. Para Graziela, ensinar sempre foi uma vocação, desenvolvida durante os 14 anos em que trabalhou na indústria calçadista, treinando novos funcionários. "Sempre digo às mulheres que fazem curso comigo que, com dedicação e confiança em si mesmas, tudo é possível".
Embora tenha conquistado a casa própria, onde também funciona o salão, além de um apartamento destinado à locação, Graziela afirma que sua maior riqueza continua sendo a família. Inclusive, cobra um aluguel abaixo do valor de mercado por conhecer de perto as dificuldades enfrentadas por quem precisa recomeçar. "Sei o quanto é difícil pagar aluguel. Nós já passamos por isso".
Mesmo com tantas conquistas, ainda existe um sonho que fala mais alto. Comprar uma terra em Barros Cassal para presentear seus pais e devolver a eles parte de tudo o que fizeram pela família. "Nós saímos de lá humilhados e desacreditados. Até hoje vejo tristeza nos olhos deles".
Ela acredita que esse momento está cada vez mais próximo. Sempre que retorna à Vila Bozzeto, sente que a história da família ainda não terminou naquele lugar. "Existe tristeza por ver quase tudo abandonado, mas também sinto que um dia vou voltar para escrever um final diferente".
Ao falar de Barros Cassal, Graziela se emociona. Para ela, o município continua sendo um berço de pessoas trabalhadoras, honestas e de palavra. Ao final da entrevista, faz questão de agradecer à família, ao marido, aos filhos e às clientes, que considera parte fundamental da sua caminhada. Também deixa uma mensagem para quem enfrenta dificuldades: "Não importa de onde você veio, quem você foi ou o que fizeram com você. Se realmente quiser mudar sua situação, é possível. O trabalho é a única forma honesta de crescer na vida".
A trajetória de Graziela Severo mostra que a força de uma promessa pode atravessar décadas. A menina que deixou Barros Cassal escondida entre roupas, levando apenas sonhos e esperança, transformou a dor em combustível para vencer. Hoje, segue construindo sua história com a mesma determinação de quem nunca esqueceu de onde veio e de quem ainda deseja cumprir a promessa feita naquele dia: devolver aos pais a dignidade que eles sempre mereceram
Sofia

 

Sofia

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