De passo a passo, Barros Cassal começa a correr
Grupo de moradores transforma corrida em hábito e encontra no esporte uma forma de cuidar da saúde, superar limites e fortalecer amizades
O primeiro passo pode parecer pequeno. Às vezes, são apenas alguns segundos de trote intercalados com caminhada. A respiração fica difícil, as pernas pesam e surge a vontade de parar. Mas, quando existe motivação, um passo puxa o outro. Foi assim que um grupo de moradores de Barros Cassal começou a descobrir, neste ano, uma nova paixão: a corrida.
Ainda em formação e sem se considerar um grupo de corredores profissionais, os participantes têm algo em comum: o desejo de cuidar da saúde, sair da rotina e desafiar os próprios limites. Cada um no seu ritmo, alguns correndo, outros caminhando e outros alternando entre os dois, eles vêm ocupando estradas, ruas e percursos do interior do município.
A professora Marta Cristina Fragoso é uma das integrantes que encontrou na corrida um novo desafio pessoal. A prática começou oficialmente para ela em julho desse ano, mas a história teve início alguns meses antes.
Em março, a convite de Vanise Baierle, Marta participou da Run Stone – Rústica das Pedras Preciosas, em Soledade, na modalidade caminhada de 5 quilômetros. Na mesma época, começou a frequentar a academia, com foco em musculação. A experiência despertou o interesse por uma atividade que, pouco tempo depois, passaria a fazer parte de sua rotina.
Sua primeira corrida foi ao lado da nora, Eduarda Finatto. “Minha primeira corrida foi com minha nora Eduarda Finatto. Nada fácil, desafiador...”, recorda.
O desafio de começar
Os primeiros treinos foram marcados por dificuldades e aprendizado. Marta começou alternando períodos de 50 segundos de caminhada com 50 segundos de trote. Aos poucos, o corpo foi se adaptando e o que parecia difícil começou a ganhar outro significado.
Para ela, um dos principais aprendizados foi entender que a corrida não começa pela velocidade, mas pela persistência. “Os primeiros treinos foram difíceis. Não é fácil, mas precisamos ser persistentes. O controle da respiração é essencial”.
Hoje, a professora mantém uma rotina que exige disciplina: três dias de musculação, três dias de corrida e um dia de descanso.
A mudança, entretanto, não aconteceu apenas no calendário. A corrida fez Marta reservar um espaço para algo que muitas vezes acaba ficando em segundo plano: cuidar de si mesma. “A mudança foi criar regras, ter tempo para se cuidar, desacomodar”.
Mais do que quilômetros percorridos ou tempos registrados no relógio, a atividade passou a representar uma conquista pessoal. “A corrida representa uma força interior, superação pessoal, um desafio a si mesma, uma paz, liberdade”.
E não é a ausência de companhia que faz Marta desistir. Quando os demais integrantes não conseguem participar, ela segue sozinha. “Quando isso acontece, vou sozinha mesmo”.
Uma rede de incentivo
A ideia de reunir pessoas interessadas em corrida surgiu naturalmente, a partir de interesses comuns.
O grupo mantém um espaço no WhatsApp onde são compartilhados horários de treino, atividades físicas, informações sobre corridas e possíveis eventos para participação. A ferramenta acabou se tornando também um espaço de incentivo.
Não existe cobrança por desempenho. Não há obrigação de correr determinada distância ou manter determinada velocidade.
A proposta é justamente o contrário: cada pessoa respeita seu próprio ritmo e, ao mesmo tempo, incentiva quem está ao lado. “Não somos corredores oficiais. Estamos dando o nosso melhor, cada um a seu tempo. Alguns caminham, alguns correm, alguns caminham e correm. E assim vamos indo, um incentivando o outro”.
A união também tem sido importante para enfrentar as condições do inverno. Frio, chuva e dias pouco favoráveis não impediram os treinos. “Se passarmos pelo inverno com toda esta garra, vamos chegar bem no verão”, afirma Marta.
Entre 3 e 5 quilômetros e alguns longões
Os treinos acontecem normalmente três vezes por semana, podendo chegar a quatro. Os percursos variam, geralmente, entre 3 e 5 quilômetros, mas também há dias de treinos mais longos.
A RSC-153 está entre os trajetos utilizados pelo grupo, mas as rotas também passam pela cidade e pelo interior.
Para os integrantes, a corrida não precisa acontecer sempre no mesmo lugar. Cada novo percurso também representa uma oportunidade de tornar o treino diferente.
E quanto mais treinam, maior parece ser a vontade de continuar. “Quanto mais você treina, mais quer treinar. É muito bom”.
Barros Cassal começa a ganhar espaço nas provas - O grupo ainda está no começo, mas já colocou o nome de Barros Cassal em algumas competições da região.
Depois da participação na Run Stone, em Soledade, os integrantes participaram, em agosto, do Cross-Country de Vera Cruz.
A prova trouxe resultados importantes. José Alencar Reinke Júnior, o Inho Reinke, conquistou o segundo lugar em sua categoria. Dra. Luna Baierle ficou em terceiro lugar na categoria Livre Feminina, enquanto Vanise Baierle terminou na quarta colocação.
No dia 30 de agosto, Vanise também participou da 2ª edição da Corrida pela Saúde do Hospital Ana Nery e conquistou o primeiro lugar em sua categoria. Luna Baierle participou ainda do 3/4 do Circuito Glow, em Candelária.
As medalhas são motivo de comemoração, mas não representam o principal objetivo. “Se ganharmos medalhas, maravilha. Mas o nosso objetivo é outro: correr, nos superar, saúde”.
Uma agenda de desafios pela frente
E quem pensa que o grupo está apenas começando está enganado. A agenda já está cheia.
No dia 6 de setembro, os corredores participarão da Corrida da Independência, em Carazinho. No dia 24 de outubro, mais de 16 integrantes estão inscritos na Cristo Night Run, em Encantado.
Em 15 de novembro, a intenção é representar Barros Cassal na Araucária Run, em Gramado Xavier. Já no dia 5 de dezembro, o grupo pretende participar da Night Run, em Soledade.
Mas o grande momento será dentro de casa. No dia 12 de dezembro, Barros Cassal terá a primeira edição da Corre Barros Cassal, corrida que promete reunir atletas e participantes do município e da região.
Marta participa da comissão de organização do evento e, por isso, provavelmente não estará entre os corredores desta vez. Mas espera acompanhar os demais integrantes do grupo cruzando a linha de chegada. “As maratonas estão acontecendo em quase todos os municípios e o nosso não podia ficar de fora. E lá vamos nós! Corre Barros Cassal!”.
Não é sobre chegar primeiro
A história do grupo ainda está sendo escrita. Não há grandes estruturas, treinadores ou pretensão de formar atletas profissionais. Há pessoas comuns que decidiram começar.
E talvez seja justamente aí que esteja a força dessa história.
Porque, para eles, correr não significa necessariamente chegar primeiro. Significa começar. Persistir. Respirar fundo quando o corpo pede para parar. Voltar no treino seguinte. Incentivar quem está ao lado. Comemorar uma medalha, mas também comemorar aqueles quilômetros que, semanas antes, pareciam impossíveis.
A corrida está fazendo com que moradores de Barros Cassal descubram que superar limites não é uma competição contra o outro — é uma disputa diária contra a própria vontade de desistir.
Marta resume esse sentimento em uma frase que traduz o espírito do grupo: “O verbo é correr. Mas você pode conjugá-lo também como aprender, errar, errar de novo, acertar, celebrar, desfrutar, sofrer, insistir em sofrer, merecer, conquistar, superar, brilhar… viver!”.
E é assim que Barros Cassal começa a correr.
Um passo de cada vez. Um quilômetro de cada vez. Uma superação de cada vez.
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