• 30 de Junho de de 2026
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Gestante denuncia falhas no atendimento e transporte da saúde; secretário reconhece erro e promete apuração

Gestante denuncia falhas no atendimento e transporte da saúde; secretário reconhece erro e promete apuração

Gestante denuncia falhas no atendimento e transporte da saúde; secretário reconhece erro e promete apuração
Uma leitora, munícipe de Gramado Xavier procurou o Jornal Serrano para relatar uma série de dificuldades enfrentadas durante o acompanhamento de sua gestação, envolvendo o transporte para exames e consultas, a comunicação com a Secretaria Municipal de Saúde e o atendimento prestado por uma servidora da pasta.
Segundo a denunciante, que está grávida de oito meses, falhas como mensagens sem resposta, mau atendimento, dificuldades para agendar viagens e problemas relacionados ao transporte para exames e consultas médicas.
Relato da Gestante
Depois do pedido da leitora, com envio de vídeo e capturas de telas de conversas, no dia 18 de junho de 2026, a equipe do Jornal Serrano esteve na Linha Santos em Gramado Xavier, para ouvir o jovem casal Mara Cleia May e Argel da Silveira, que atualmente enfrenta dificuldades financeiras e se encontra em situação de vulnerabilidade social.
Fumicultores, eles trabalharam de sócios na safra passada, mas acabaram acumulando prejuízos. Segundo relataram, os valores pagos pelo fumo ficaram abaixo do esperado. Como o contrato firmado por eles previa uma remuneração baseada em um percentual da média da arroba, o casal encerrou a safra sem qualquer rentabilidade, permanecendo apenas com as dívidas acumuladas.
Mara contou que anteriormente conseguia se deslocar até os atendimentos de saúde porque morava mais próxima e possuía meios de transporte. Porém, há pouco tempo mudou-se para mais longe e a mais de um mês, o veículo da família apresentou problemas mecânicos. Sem recursos para realizar o conserto, ela e o marido passaram a depender da ajuda de vizinhos para se locomover. Foi diante dessa situação que a gestante procurou auxílio junto à Secretaria Municipal de Saúde.
Durante a entrevista, Mara apresentou à reportagem capturas de tela de conversas por WhatsApp que demonstraram tentativas de contato com a Secretaria de Saúde sem obter resposta. Em uma das mensagens, ela questionava se haveria espaço para que seu marido a acompanhasse em uma viagem para consulta médica.
No dia seguinte, Mara relata que chegou em frente ao posto de saúde antes das 6 horas da manhã para embarcar na van que a levaria até Santa Cruz do Sul. No entanto, o veículo não chegou no horário. Diante da demora, ela tentou entrar em contato para saber o que havia acontecido, mas novamente não recebeu resposta. Sem alternativa, decidiu permanecer aguardando no local. Segundo seu relato, naquela manhã faziam 2 graus.
A van teria chegado apenas por volta das 7h30. Foi então que, segundo a gestante, ocorreu o episódio que mais lhe causou vergonha e humilhação, seu nome não constava na lista de passageiros. O motorista, inicialmente, não queria permitir seu embarque sem que seu nome estivesse na lista oficial da viagem. Apenas após insistência e apresentar documentos e comprovantes demonstrando que havia agendado o exame em Santa Cruz do Sul, que o motorista cedeu e aceitou sua entrada.
Mara relata ter se sentido humilhada pela situação. Segundo ela, foi a única paciente que não recebeu aviso sobre a mudança de horário, seu nome não estava na lista de passageiros e, além disso, seu marido não pôde acompanhá-la para a realização do ultrassom, mesmo com a van praticamente vazia.
Ao retornar da consulta, após todo o transtorno enfrentado durante o transporte, Mara decidiu procurar esclarecimentos junto a uma das profissionais. Abalada e revoltada com a situação, ela questionou o motivo de ter sido a única paciente que não recebeu aviso sobre a alteração do horário da viagem, ressaltando ainda que passou frio naquela manhã.
Conversa da gestante com a atendente (CC):
Segundo o relato da gestante, a profissional respondeu questionando qual seria o problema, uma vez que ela havia conseguido realizar a viagem no mesmo dia. A servidora também teria destacado que existe uma grande quantidade de pacientes e agendamentos para administrar diariamente, afirmando que os próprios usuários também possuem responsabilidade de perguntar sobre o reagendamentos de horário.
Durante a conversa, a profissional mencionou ainda que, em outra ocasião, a gestante não compareceu a uma consulta previamente marcada. Mara interrompeu a fala e respondeu que não compareceu porque, segundo ela, o secretário de Saúde, Elocir, havia se comprometido a buscá-la e isso não aconteceu. Em resposta, a profissional afirmou, que, se o secretário não realizou o transporte, ela não teria nada a ver com isso.
A gestante então voltou a destacar que a servidora havia assumido o compromisso de avisá-la sobre alterações e agendamentos. 
Conforme seu relato, a profissional respondeu que falhas podem acontecer, assim como ela não pode ir na consulta agendada. Mara respondeu que o Elocir tinha se comprometido a buscar. A funcionária respondeu: “Agora, se o Elocir não foi te buscar, não é culpa nossa”.
Já em relação ao pedido para que fosse levada até sua residência, argumentando que não tinha condições de ir a pé até Linha Santos, a atendente diz: “mas que culpa eu tenho se você não tem como ir para casa?”. A paciente diz que tem este direito, e a atendente diz que ela teria que ver com o Elocir (secretário) se ela tem ou não este direito. Mara gravou esta conversa. Após isso, Mara foi levada para casa pelo próprio secretário. Segundo ela, durante a conversa, Elocir teria informado que não existe obrigação da Secretaria em buscar ou levar pacientes até suas residências.
Mara reconhece que estava exaltada durante a discussão, mas afirma que se sentia profundamente humilhada com a forma como vinha sendo atendida e que não encontrou outra maneira de demonstrar sua frustração diante do que considerava uma sequência de problemas, que ignorava totalmente as dificuldades que estava passando por não ter como se locomover. Ela questiona como poderia buscar informações sobre horários e viagens se, suas mensagens não eram respondidas.
A gestante afirma ainda que, na quinta-feira, perdeu outra consulta. Segundo ela, nem mesmo a agente de saúde teria obtido resposta ao tentar realizar um novo agendamento relacionado ao acompanhamento de sua gestação. De acordo com Mara, a consulta serviria para avaliar uma alteração identificada na quantidade de líquido amniótico em um exame recente e verificar se a situação poderia representar algum risco para a gravidez.
Ela relata que a preocupação com a saúde do bebê tem lhe causado ansiedade e medo, especialmente neste período final da gestação. Apesar disso, afirma que recebe apoio constante do marido, que procura tranquilizá-la e transmitir confiança de que tudo ocorrerá bem durante o parto.
Segundo Mara, o principal motivo que a levou a procurar o Jornal Serrano foi o receio de não conseguir atendimento ou contato com a Secretaria de Saúde caso necessite de ajuda agora, tão próximo do parto. Ela afirma não compreender por que suas solicitações estariam sendo ignoradas e acredita que os acontecimentos já ultrapassam a possibilidade de um simples erro isolado, embora diga não ter qualquer explicação para o que possa estar motivando a situação.
Entrevista com o Secretário da Saúde Elocir 
Elocir França reservou um horário para ouvir os questionamentos e se colocou à disposição para responder todas as perguntas e esclarecer os pontos que estivessem ao seu alcance.
Durante a conversa, apresentamos os relatos fornecidos pela gestante, explicando toda a sequência dos acontecimentos. 
Também foram realizados questionamentos sobre o atendimento prestado às gestantes no município, os direitos relacionados ao transporte para consultas e os procedimentos adotados pela Secretaria de Saúde. Por fim, foi garantido ao secretário seu direito de manifestação e resposta em relação às denúncias apresentadas. Partes das informações eram garantidas por vídeos, imagens e documentos.
Questionado sobre como avalia o atendimento prestado às gestantes do município, Elocir afirmou que procura analisar os fatos com realismo. Segundo ele, no caso relatado existem falhas por parte da Secretaria de Saúde que precisam ser reconhecidas, mas também há situações narradas pela gestante que, em sua avaliação, faltaram com a verdade.
O secretário destacou que a pasta busca oferecer o melhor atendimento possível. Sobre o deslocamento entre a residência das gestantes e a Unidade Básica de Saúde, explicou que existe um entendimento interno da secretaria para atender gestantes em situação de vulnerabilidade social que não possuam meios próprios de locomoção.
Segundo Elocir, embora não exista uma lei específica que obrigue o município a buscar e levar gestantes em suas residências, a Secretaria procura garantir esse atendimento em situações de necessidade social. Ele ressaltou que a legislação prevê obrigações mais específicas em casos como pacientes cadeirantes, idosos com limitações ou situações de urgência e emergência, mas que a questão social também é considerada pela pasta na organização dos transportes.
Sobre esse ponto, a gestante relatou à reportagem que teria sido informada pelo secretário de que não haveria obrigação de buscá-la ou levá-la até sua residência. Elocir contesta essa interpretação. Segundo ele, em nenhum momento afirmou que o município não realizaria esse tipo de atendimento. O que teria explicado é que, de forma geral, não existe uma obrigação legal para todos os casos, mas que situações específicas, como a vulnerabilidade social, são analisadas individualmente e podem receber esse suporte.
A reportagem teve acesso a mensagens apresentadas por Mara, nas quais um pedido de transporte domiciliar teria sido negado sob a justificativa de que não havia autorização para realizar a busca em sua residência. Esse é um dos pontos que permanece com versões divergentes entre a gestante e a Secretaria de Saúde.
Questionado sobre como funciona o atendimento de forma geral, o secretário afirmou que todos os cidadãos possuem os mesmos direitos dentro da rede municipal de saúde. Segundo ele, apenas casos específicos recebem acompanhamento diferenciado, normalmente quando existe também uma situação de vulnerabilidade social que demanda a atuação conjunta da assistência social.
Elocir explicou que o transporte entre a residência do paciente e a unidade de saúde deve ser analisado dentro desse contexto. Conforme destacou, não seria razoável que esse serviço fosse disponibilizado indistintamente para todos os usuários. Como exemplo, citou situações em que a pessoa possui veículo próprio ou outras condições de deslocamento. Segundo ele, nem o Sistema Único de Saúde (SUS), nem qualquer outro serviço público de saúde trabalharia com esse entendimento.
O secretário afirmou ainda que esta é a primeira reclamação com esse tipo de teor que recebe desde que assumiu a pasta, em 2025. Ressaltou que busca garantir que todos os usuários saiam satisfeitos da Unidade Básica de Saúde, especialmente no que diz respeito ao atendimento e à garantia de seus direitos.
A reportagem também questionou quais são os protocolos adotados para avisar pacientes sobre consultas, exames e eventuais alterações de horários. Segundo Elocir, as agentes comunitárias de saúde mantêm contato direto com a Secretaria e auxiliam no repasse das informações aos pacientes. Além disso, os usuários também podem receber informações pelos canais de comunicação da própria secretaria.
De acordo com o secretário, sempre que ocorre uma alteração de horário a equipe procura avisar o paciente com antecedência. Ele reforçou que os procedimentos internos existem para serem cumpridos e que os responsáveis pelos atendimentos devem responder quando algo não ocorre conforme o previsto. Durante a entrevista, utilizou a expressão: “cego não é quem não vê, mas quem não quer enxergar”, ao afirmar que não pretende ignorar possíveis falhas que tenham ocorrido. Segundo ele, a conduta relatada pela gestante não corresponde ao protocolo que deveria ter sido seguido.
Sobre a servidora apontada pela denunciante, Elocir afirmou que se trata de uma profissional com grande autonomia dentro da Unidade Básica de Saúde, sendo, segundo suas palavras, a pessoa com maior poder de decisão no local abaixo apenas do secretário. Destacou ainda que ela ocupa um (CC) cargo de confiança e que sua versão dos fatos diverge em alguns pontos do relato apresentado pela gestante.
Entendimento do secretário sobre o caso
Ao longo da entrevista, o Jornal Serrano apresentou ao secretário diferentes situações relatadas pela gestante, incluindo a falta de aviso sobre a alteração do horário da viagem, a ausência de seu nome na lista de passageiros, a falta de retorno sobre o pedido de acompanhante e a informação de que uma nova consulta teria sido perdida devido a dificuldades de comunicação com a Secretaria.
Diante do conjunto de fatos apresentados, Elocir afirmou que, reconhece a existência de falhas que precisam ser apuradas e corrigidas. Segundo ele, embora algumas situações relatadas pela gestante possuam versões divergentes e dependam de uma verificação mais detalhada dos registros internos, os problemas apontados indicam que houve falhas de comunicação e organização que não deveriam ter ocorrido. O secretário declarou que assume a responsabilidade institucional pelo ocorrido enquanto gestor da pasta e informou que realizará uma avaliação interna para identificar onde ocorreram os erros e se houve descumprimento dos protocolos adotados pela Secretaria de Saúde. Segundo ele, mudanças de horários, agendamentos e transporte de pacientes seguem procedimentos estabelecidos que devem ser cumpridos pela equipe.
Destacou que considera legítimo o direito da paciente de apresentar reclamações e afirmou que situações como essa precisam ser analisadas com transparência para que eventuais falhas sejam corrigidas. Pediu que fosse registrada sua manifestação de que cada pessoa possui uma função dentro da sociedade e afirmou manter tranquilidade diante das avaliações públicas sobre sua gestão, pois acredita estar atendendo às demandas da população da melhor forma possível.
Ao finalizar, Elocir informou que encaminharia à reportagem os relatórios que, segundo ele, comprovariam as ausências da gestante nos atendimentos citados. Até o momento da publicação desta matéria, esses documentos não foram enviados ao Jornal Serrano.
Já a gestante, Mara, afirma não reconhecer as faltas mencionadas pelo secretário. Ela encaminhou à nós uma relação de consultas e atendimentos realizados durante o pré-natal, contendo comprovantes de presença fornecidos pela própria rede de saúde. Mara pondera que pode ter deixado de comparecer a alguma consulta em anos anteriores, mas afirma que, desde o início de sua gravidez, comparece rigorosamente a todos os atendimentos para os quais consegue transporte, sempre avisando em caso de não poder comparecer.
Reportagem Deriqui Reis - jornalista MTE: 22449/RS

Sofia

 

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